
erro de pessoa
hoje estranhamente me vi
como quem enxerga algo perdido e tem dó
eu estava ali diante de mim
sem a esperança comum a minha idade
alheio à cor dos sapatos e da camisa
à marca de cigarro entre os dentes
e às coisas todas insólitas do amor
assim, escapou-me, por descuido,
esse eu mesmo corriqueiro
como um copo de vinho escorre dos dedos
e ganha o chão
arremetido ao solo,
os cacos de mim olharam-me
e eu me olhei, pobre de mim,
aos estilhaços, um ser sonhado,
um ser EU...
o ser humano sem graça, crente de tudo
- inclusive no amor – que eu era.
profunda e intensa saudade vivi
fitando meus pedaços, pois, agora, sem mim,
comungava a presença da minha solidão
eu era apenas uma falta sem falta
o pior vazio é aquela feito apenas de vazio
senti um não-ter–o-que-sentir
e assim vago seco oco
achei-me parecido demais com ninguém
e confesso isso ao eu perdido,
como apelo às esperanças também perdidas,
confesso isso, que não sei, ao vento,
às paredes, aos ouvidos surdos desse espírito desespirituoso
e confesso, porque não confiei manter no coração
essa sensação de estar sem sensação,
de que o coração é um deficiente completo
para tratar das coisas do coração
a razão deste poema é não ter razão para um poema,
é essa falta de enredo ou de argumento, ou de poeticidade
quantos minutos desse instante de vida perdi aqui
bajulando um poema que não quer sair?
e vós, ao olhá-lo, quanto perdeu?
tende nos olhos e na língua pena desse eu,
que talvez alguém apelide “eu – lírico”, mas lirismo nenhum viveu
tudo aqui é inutilidade de verbos, versos, ventos...
melhor, então, encerrar com o que é sem razão,
essa falta de lógica despretensiosa e prosaica,
desde o início não tinha mesmo nada a dizer
(.) ponto-final